|
 JOANES - Escavações feitas por pesquisadores do Goeldi mostram presença de aldeia As ruínas da igreja - Nossa Senhora do Rosário - construída por missionários religiosos em meados do século XVII, na Vila de Joanes, em Salvaterra, Marajó, não testemunham apenas a história da ocupação recente daquela região. O arqueólogo Fernando Marques garante que no sítio onde estão as ruínas, ameaçado por uma série de intervenções danosas à integridade da área, há vestígios de 'materiais pré-históricos de uma aldeia indígena posteriormente ocupada por missionários religiosos europeus. As peças remetem ao período colonial. São louças, moedas e vidros utilizados na construção da igreja', diz o especialista, que integrou a equipe do Goeldi que, no ano passado, fez escavações no local e encontrou os objetos.
O objetivo do trabalho, segundo ele, foi conter a depredação das ruínas, consolidar o sítio e construir um memorial com as peças encontradas. 'Denúncias de que obras da Prefeitura e o vandalismo estariam prejudicando o sítio foram o ponto de partida do projeto. O Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) convidou o Museu Goeldi para coordenar os trabalhos', relata, ao ressalvar, contudo, que após o serviço de emergência o abandono persistiu. 'A próxima etapa deve acontecer neste ano, mas ainda não foi marcada. O edital está sendo preparado para ser enviado a Brasília', informa Dorotéa de Lima, superintendente regional do Iphan.
Fernando Marques observa que as escavações recentes lançaram algumas luzes sobre o sítio, até então um ilustre desconhecido para os pesquisadores. Marques lembra, por exemplo, que antes das escavações não se sabia nem sequer a ordem que havia colonizado a área. 'A partir dessas escavações é que foi possível saber que a ordem dos franciscanos foi que colonizou os índios da região', explica Denise Schaan, coordenadora do projeto 'Preservação, Construção, Pesquisa e Educação Patrimonial no Sítio Histórico de Joanes', de 2006.
O trabalho do ano passado foi dividido em quatro etapas. 'Fizemos o monitoramento, delimitamos o sítio, iniciamos as escavações e fizemos análises no próprio local dos materiais recolhidos', conta Fernando Marques. As partes estruturais da igreja enterrada não foram removidas. 'Foram recobertas e continuam no sítio', diz Fernando. Já os objetos encontrados deveriam estar no memorial, mas como o projeto não andou e integrantes da comunidade fizeram questão de que o material não saísse de Joanes, a Escola Ruth Passarinho, localizada ao lado da área onde fica o sítio, funciona como museu temporário para as peças. 'Nós queríamos que tivesse um local para guardar e exibir essas descobertas. Por isso é importante o trabalho de educação dos habitantes de Joanes', destaca o pesquisador.
Falta de apoio Para os pesquisadores, a idéia do Memorial que serviria como base para o início do trabalho de educação não prosperou por falta de apoio político e de parte da própria população. 'Quando deixamos o lugar, a limpeza do sítio não continuou e o Iphan não pode assumir todas as responsabilidades', explica Denise Schaan. 'Não temos condições técnicas para tomar conta de um patrimônio histórico no Marajó. A responsabilidade é coletiva, então todos devem colaborar', defende Dorotéa. A segunda etapa do projeto deveria prosseguir neste ano, mas há obstáculos para a retomada até entre os pesquisadores. 'A próxima etapa deveria ser agora, mas tivemos problemas de cronograma', diz Fernando Marques. 'Caso o projeto seja retomado, acredito que vamos aplicar mais o trabalho de educação patrimonial na escola. Parte da população não apóia o trabalho, mas eu entendo o lado deles, talvez não queiram mudar a rotina do município, que pode se tornar um núcleo turístico por causa desse sítio arqueológico', diz Denise. 'Com a falta de apoio, o próprio trabalho arqueológico fica prejudicado. Eles não entendem que precisam disso, quando chegamos lá notamos que é uma vila muito pobre, eles não tinham nem ônibus de linha para seguir até Salvaterra', conta a pesquisadora.
O Iphan garante, porém, que a retomada dos trabalhos é certa. 'Será feita a retomada tanto do projeto de manutenção quanto de educação patrimonial com os moradores de Joanes', promete Dorotéa de Lima. Mais de R$ 20 mil foram investidos no projeto pelo Iphan, com o apoio de outras instituições, como o Museu Emílio Goeldi, a Fundação Instituto para o Desenvolvimento da Amazônia (Fidesa) e até o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae). 'Depois que começamos e todos começaram a notar o valor que o lugar tinha, o Sebrae entrou para explorar o lado turístico do sítio arqueológico', explica Denise.
Com relação ao barracão abandonado no sítio arqueológico, que servia de base para os equipamentos de uma pesquisa conjunta entre a Celpa e a UFPA, para testar fontes de energia eólica e solar a partir de 1997, a empresa informou ontem através de nota de sua assessoria de imprensa que a edificação já cumpriu sua finalidade e o destino dela deve ser decidido com a prefeitura de Salvaterra.
|